A
morte, sempre ela, a espreita não só dos incautos, mas de todos, talvez para os
incautos e descuidados possa chegar antes, mas acaba alcançando a todos. Quase
sempre a morte é de profunda tristeza para familiares e pessoas do
relacionamento do falecido, para alguns desafetos a morte passa em alguns casos
ser um alivio e para tantas outras nada mais é do que um meio de vida.
Temos
os agentes funerários, empregados destas agencias, o coveiro, funcionários do
cemitério, ou das empresas de cremação, para o florista, para algumas religiões
e para algumas funções até inusitadas, mas para alguns necessária.
Carolina
Maluf, 30 anos, profissão necromaquiadora. Isto mesmo, Carolina tem como profissão
fazer make em defuntos, e ganha a vida com isto. Além de ser hoje uma
profissional no seu trabalho, ainda promove cursos de necromaquiagem, o curso tem
48 horas inclusive com aulas práticas.
Cobra
por trabalho de R$ 600 a R$ 6000 dependendo do tipo de make a ser
realizada, uma maquiagem mais suave ou mais pesada com restituição em caso de
acidentes, o trabalho dura de 30 minutos quando é algo simples até oito horas
quando em caso de acidente e a necessidade de realizar uma reconstituição.
Afirma
ela que não tem medo de gente morta, dos vivos sim. E também não toma banho
após cada serviço, se fosse fazer isto era muito banho. Não tem nenhum tipo de
nojo ou asco e logo após o trabalho consegue comer normalmente, não faz nenhum
tipo de ligação.
A
morte faz parte da vida, (que novidade), mas insistimos em não aceita-la, é
muito complicado lidar com ela, ainda mais quando a vida é tirada por um
acidente, hoje tudo bem, amanhã ta morto. Hoje você é um protagonista de uma
novela, no dia seguinte sucumbe ali mesmo, naquela paisagem e não
cenograficamente, mas na vida real.
Não
sou de assistir novelas, mas, até pelo rio São Francisco, região que minha avó
muita contava que para os nordestinos o Velho Chico está para o nordeste como o
Nilo esta para o Egito. Então acabei nas zapeadas passando pela novela. E o
protagonista da trama acabou falecendo, sendo arrastado pelas águas do São
Francisco, num local onde a água consegue enganar e ganhar até dos mais
experientes.
Na
verdade, tudo isso é um gancho ou exemplificação sobre um artigo que lia, e
como não sou peixe e por certa ocasião ou até duas passei muito perto de
entender o que seja um afogamento por experiência própria sempre fico meio
arredio com água, não com líquidos, só alguns.
O
afogamento é quarta causa de mortes acidentais em adultos e uma das três
principais em crianças. Mas afinal o que vem a ser o afogamento?
1- No início do afogamento, a pessoa se debate,
tentando se manter na superfície. Ela prende a respiração o quanto pode e
aspira, sem querer, pequenas quantidades de água, o que provoca o fechamento da
laringe, órgão situado entre a traquéia e a base da língua. Esse é um mecanismo
de defesa do nosso corpo para que a água não inunde os pulmões.
2- Depois de alguns minutos, a laringe relaxa e a
pessoa involuntariamente respira debaixo d’água, aspirando e engolindo grande
quantidade de água. Parte do líquido vai para o estômago e o restante segue o
mesmo caminho do ar: percorre a traquéia e chega aos pulmões, passando por
brônquios, bronquíolos e alvéolos.
3- Com o pulmão encharcado, a troca gasosa (entrada
de oxigênio e saída de gás carbônico) não funciona mais. A redução da taxa de
oxigênio causa danos em todos os tecidos, principalmente nos que precisam de
mais ar, como as células nervosas. O cérebro é gravemente lesionado e a pessoa
fica inconsciente.
4- Depois de chegar aos alvéolos, a água entra no
sangue e penetra nos glóbulos vermelhos, destruindo-os. Com isso, o potássio
presente nessas células vaza para o plasma sanguíneo. Em concentração elevada,
o potássio é fatal: ele acaba com a diferença de carga dentro e fora da célula,
impedindo a transmissão dos impulsos nervosos e, assim, a contração muscular.
Com isso, o coração pode parar de bater.
Não
tem morte bonita, não tem uma boa escolha para morrer, mas a morte por asfixia
é cruel, muito cruel.
Poucas
pessoas lidam bem com a morte, de uma forma ou de outra, todos sabem que
existe, mas ninguém acostuma com a ideia que vamos morrer ou de pessoas por
quais temos algum sentimento, e estranhamente não damos a mínima pela morte de
estranhos, ela apenas nos agride quando está muito próxima e por quem gostamos.
Acredito
que inclusive com as pessoas que estão bem próximas dela, no caso profissionais
da saúde, socorristas, policiais, agentes funerários e até os coveiros também
não se acostumam com ela. Faz parte do dia a dia, mas de uma forma diferente,
digamos “profissional”.
Também
não gosto muito dela não, evito funerais, sei que existe, que está no dia a dia
mas o meu relacionamento com ela é apenas social. Paradoxalmente sempre tive
uma mania, já não tenho mais, provavelmente era uma “modinha”, gostava de
visitar cemitérios e igrejas. Provavelmente pelo seu silencio, imaginando nos
cemitérios quantas pessoas ali estão (seus corpos) hoje a cremação já e uma
realidade, imaginava o espirito, se realmente ainda estavam por ali
perambulando, tristes, vazios, podendo observar tantos vivos e não poder ter
nenhum contato. Também em alguns cemitérios, algumas sepulturas verdadeiras
obras de arte, mausoléus, conforto piramidal para os que já foram. Assim como
as igrejas com seus arcos, principalmente as antigas, construídas com muito
sacrifício, muitas ornadas com preciosidades, quando sua nave vazia, espreita
uma solidão, onde aparentemente vagueia por entre os bancos e pelas imagens
vultos de almas que por ali passaram e foram encomendadas.
Um
tanto fúnebre tudo isso. Concordo. Porém, hoje os cemitérios em sua maioria,
são assombrados pelos vivos, usuários de cracks, moradores de rua, ladrões de
sepultura, então, até a mágica no pouco que existia na morte está sendo
“enterrada”.
Eu já e recomendo, acredite. No início, quando você começa a cogitar a ideia,
dá um certo medo, uma angústia toma conta de seu peito, seu coração dispara,
sua pressão sobe e por algumas noites você não consegue dormir direito. Você
fica como que tomado por aquela mistura de obsessão com medo e a ansiedade só
faz aumentar. Depois vem a fase do conflito interno entre suas verdades
absolutas e aquele novo passo à sua frente que vai de encontro a tudo que você
sempre acreditou e pregou aos quatro cantos. Vem então a fase da elaboração
mental da desculpa que fará você acreditar que você tomou a atitude mais
correta e, por que não dizer, a mais corajosa. Sim, coragem, isto é necessário
e muito. Muitos dizem que suicídio é um ato de covardia, mas estes nunca se
suicidaram. Só quem já se suicidou, como eu, sabe do tanto de coragem que é
necessário. Suicídio não é para qualquer um, você pode ter certeza disso. Entre
uma angústia e outra, entre uma ansiedade e outra, entre uma insônia e um
pesadelo, entre um vômito e uma diarreia inexplicáveis, você vai refinando seu
projeto e, quando vê, já está ali, naquela esquina da vida, onde não há outra
decisão plausível, onde e quando o único passo que lhe é possível é em direção
ao precipício, e você sabe que não há precipitação alguma nisso, como
alguns dirão. Tudo foi muito bem pensado, e, assim, calmamente, você dá o
passo.
Se você planeja fazer o mesmo e é viajante de primeira viagem, aqui vai um
conselho de alguém que já se suicidou algumas vezes: curta a viagem. Sim,
chamo-a de viagem, não de queda. Saboreie cada centímetro sem chão sob seus
pés, observando cada minuto de passado que vai passando frente a seus olhos.
Não fique naquela angústia ridícula balançando os pés, tentando encontrar algo
fixo e estável para se apoiar, pois não há. Relaxe, você está se suicidando e
já não há mais volta, agora é só seguir, querendo ou não. Então, se nesta hora
você fizer a idiotice de sentir medo e fechar os olhos, você perderá muito e
seu suicídio poderá ficar meio sem razão de existir, o que provavelmente o
levará a outros suicídios, além do que você perderá a graça e umas das maiores
recompensas que um suicídio proporciona. Então, meu amigo suicida, seja
esperto, abra seus olhos e observe o desmoronamento aparentemente lento que só
você terá o privilégio de assistir e a capacidade, se é que terá, de entender.
Também não tente se segurar a algum galho perdido ladeira abaixo. Você poderá
se machucar e, pior, sobreviver, o que será pior que o suicídio em si. No
suicídio, quer dizer, num bom suicídio, assim, merecedor de respeito, a queda
não se dá só para baixo, mas também para trás, creio que por isso a chame de
viagem. E caindo assim, chega uma hora em que você para. Sim, você simplesmente
para de cair e a viagem termina, não porque você quis ou planejou, nenhum
suicida de respeito tem o poder de planejar onde vai parar, isso não seria
justo, você simplesmente para onde parou e aceita isso como um fato. Afinal,
agora não é momento para outro suicídio. Um suicídio após o outro pode ser
fatal.
Começa então a vida nova. Sim, há vida após o suicídio, embora poucos acreditem
nisso, principalmente quem está no processo de suicídio. Quem se suicida nunca
o faz pensando nesta vida futura, pois ele, mesmo se ele já se suicidou outras
vezes, nunca acredita nesta possibilidade. Mesmo já tendo passado por isto
outras vezes, ele acredita que após aquele suicídio não haverá mais vida. Até
porque, um suicida que se preze não se suicidaria se acreditasse na hipótese de
vida após o suicídio, ele seria um hipócrita, e suicidas podem ser tudo, mas
nunca hipócritas. Eles são transparentes a ponto de parecer mentira e
irracionalidade, algo que ultrapassa a inocência e só pode ser classificada
como ingenuidade extrema. Suicidas são pessoas perigosas tamanha a credulidade
que têm. Ou seja, eles não são hipócritas e jamais se suicidariam se
suspeitassem que haveria vida os esperando após o suicídio. Por mais suicídios
que já tenham cometido, eles sempre acreditam que aquele será o último e
definitivo. Por esta razão, há sempre um novo medo que ele jura que nunca
sentiu antes, mas sentiu. Por ser assim tão inocente, ele acha que agora será
para sempre, e esta é a única possível motivação de um suicida honesto e
verdadeiro: saber, ou acreditar, que agora será para sempre, que não haverá
mais vida possível. Mas sempre haverá.
Pode até que tenha, pode até ser que alguém esteja
preparado, mas até o suicida em potencial não está assim preparado para a
morte.
Como já disse várias vezes eu raramente penso nela, nem para
mim nem para os outros, tenho a impressão da vida eterna, sempre imagino que
tenho ainda tanta coisa para fazer que seria um desperdício morrer agora ou da
aqui algum tempo, as vezes a procrastinação é até inconsciente sabendo que
posso muito bem fazer amanhã ou dentro de um tempo, afinal vou estar por aqui.
Entretanto, não sou idiota, a morte vem para todos, até para
aqueles mais tementes a Deus e com a fé acima de qualquer suspeita, até esses
ainda temem pela morte e do que vai encontrar na sequência, ou não.
Também não tenho toda a preocupação de deixar um legado, ou
deixar bens materiais. Sou egoísta? Não, se algo ficar que fique alguns
exemplos, algumas palavras, e que no meu epitáfio escrevam “Nunca foi um bom
exemplo, mas era gente boa”, afinal todo mundo que morre fica bom. Brincadeiras à parte, ainda bem que estou
escrevendo isso, sinal que ainda vivo estou (eu acho), e enquanto eu pensar
sobre o assunto, mesmo procrastinando um pouco sei que posso ser melhor, e
quando eu me for, que como diz a música não me deixem morrer nos seus
pensamentos. Principalmente para aqueles que eu ficar devendo, sempre lembrarão
de mim. (rs).
Nunca estaremos preparados para perder alguma coisa, muito
menos para perder alguém.
Desde muito cedo somos criados pelos nossos pais a cultivar
coisas materiais, a cultivar pessoas, tê-las como uma “propriedade”, seus pais,
seus irmãos, sua namorada (o), sua mulher, seu marido. O nosso cérebro é
preparado apenas para ter e nunca para perder, como se um dia realmente nosso
fosse.
Ledo engano, tudo de nós será tirado (tudo é um empréstimo
que será cobrado), mais cedo ou mais tarde, ou pela vontade própria ou do
outro, ou pelo inevitável, pela morte. Então iremos sofrer, não vamos
acreditar, vamos nos revoltar contra todos, contra “Deus” e contra o “diabo”,
vamos achar injusto, e o caminho segue.
Somos efêmeros, somos poeira, e insistimos que temos de ter,
e mais ainda não podemos perder, uma verdade que demoramos sempre mais do que o
necessário para aceitar.
Em nossas cabeças, sempre que “perdemos” alguém
principalmente, gostaríamos de ter mais uma chance de dizer algo que nunca
falamos, ou que ficou faltando, que poderia ter sido diferente. Mas é tarde
demais, sempre é tarde demais depois que já se foi.
Então vamos compartilhar agora em vez de ficar guardando, já
que a perda será inevitável.